quinta-feira, 24 de agosto de 2017
A vida alheia...
Adoecemos de palavras,
que palavras são mortais,
viram armas escravas
de intrigas sepulcrais,
no diz que diz do dia
o vulgo se satisfaz,
e espalham palavras,
palavras são mortais.
Pobres de amorosidade
que só enxergam o jogo
de falar por entrelinhas,
e cultivar pela herdade,
ervas daninhas
e frases inoportunas,
que fecundam sozinhas
um mundo apaixonado
por coisas mesquinhas.
E de tanto maldizer,
e falar por falar,
falam para ofender
e para machucar.
Quem cuida da vida alheia
não cuida de si próprio,
divulga o que não sabe
no incontrolável vício
desse triste ópio,
dar notícias sem lastro,
em exercício diuturno,
de vigiar alheios passos,
atrás de véus escondidos,
assim é a humanidade,
mesquinha e incongruente,
veste-se de palavras,
que se arvoram decentes,
cujos significados
não sabidos,
orgulham os desavisados
e não vividos.
O ópio dos desgraçados,
que ao invés de trabalhar
dedicam-se ao nobre exercício
de simplesmente fofocar.
Carlos Roberto Husek
sexta-feira, 18 de agosto de 2017
Quando partir...
Quando partir,
partirei pleno,
sabendo que embora
tenha posto os pés na terra,
sempre voltei meus olhos para os céus
e meu coração angustiado de astros
bateu emocionado em todas as aventuras.
Quando partir,
quero deixar marcas no chão das horas,
passos de dança suavemente postos
e no ar o retrato diáfano das mãos
guardando gestos
e o desenho - quem verá? - daqueles
que conterão inconfundíveis notas
de amor, de abraço, de sorriso.
Quando partir,
quem me amou, abraçou e sorriu
sentirá que não fugi de todo
dos meus amigos.
Quando partir,
aqueles que só souberam de mim
na formalidade dos eventos,
não irão, espero, admoestar
meus arrufos humanos
e minhas inseguranças
e meus desejos,
sabedores, por certo,
do frágil sol que possuí
nascido e morto a cada entardecer.
Quando partir,
pequeno e fugaz,
se apiedem os céus dos meus pecados,
e destes fiquem a borda
que não desnatura a essência das coisas.
Quando partir,
saberão os que me conheceram
que em cada olhar ansiei pelo olhar,
que em cada luz ansiei pela luz,
que em cada som ansiei pelo som,
que em cada carinho ansiei pelo carinho,
e só dei o que foi possível dar,
na infinita necessidade de ser.
Quando partir,
em um dia assim como este,
com esta chuva, com estas nuvens,
e esta noite que se fará eterna
tudo se acomodará,
sem que me vejam destituído
da capacidade de dar e receber,
eu que serei pó ou cinza ou um passado
sem começo ou fim,
um ficar esperando o refúgio da terra,
um ir vestido de vento,
um voar para o nada,
batendo asas emprestadas,
como um pássaro cego,
em busca da terra prometida.
Quando partir
sem aviso no dorso do tempo,
sem razão, sem veleidades
e sem sonhos
saberão que tudo não passou
de um simples texto,
crônica sem lastro,
de poucas páginas,
em meio a milhares de escritos
nos volumosos e empoeirados
alfarrábios da vida.
Carlos Roberto Husek
sexta-feira, 11 de agosto de 2017
A voz das coisas
Estava observando o nada,
e o teto me encarava
com sua pintura branca...
Nos retratos alguns rostos
indagavam-me sem palavras
sobre o que fazia...
Conversei com os antepassados
que de suspensórios cogitavam,
sair das fotografias...
Os livros enfileirados
gritavam em suas páginas
textos e textos de modo surdo...
Alguns enfeites, corujas, estatuetas,
símbolos, conjunto de canetas,
não se atreviam falar...
Tesouras dentro das gavetas,
calavam-se tristes
em suas hastes metálicas,
Vi com as pálpebras fechadas
que ressonavam entre paredes
todas minhas formas de vida.
O silêncio de tudo,
me segredava memórias
e estas, sim, dançavam absortas.
Não dormi apreensivo
de que os objetos sem vida
respirassem infinitamente.
Porque estavam vivos
e me olhavam desesperados
para contar que me entendiam.
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As horas passam desfilando
pelos ambientes vazios
como caravanas mudas.
Percebo que tenho mais,
dentro de mim
do que os dias permitem.
Quando me cerco
de gente no trabalho e na vida,
vivo a eloquência das ideias.
E os sentimentos e raciocínios
falam aos meus ouvidos coisas
inexplicáveis...mas, sei o que são.
Carlos Roberto Husek
sábado, 27 de maio de 2017
O sentido das palavras,,,
Um ponto...um ponto no caminho,
e depois de passado, só restam árvores
e mato e ervas daninhas e flores e espinhos,
e rosas e todas as cores do mundo,
do amarelo ao grená, do verde ao azul,
do branco ao cinza e em meio
esticando o caule e suas folhas
um estilete verde a galgar o espaço
em busca do céu que parece longínquo,
e das estrelas que brilham distantes
e a perfurar as nuvens para que descarreguem
água em abundância para encharcar a alma
ou mitigada, para devagarinho ir alimentando
cada poro do corpo penetrando em suas raízes
e fazendo frutificar um sonho, uma lágrima,
alguma essência que expulse os pesadelos,
amaine a dor das cicatrizes, depurando-as
e que encubra a epiderme do odor dos eucaliptos.
É árida a estrada que segue o pó que se levanta
de solitários andantes que arrastam suas agruras
com solitárias sandálias desacostumadas
das pedras que rolam, se encontram e se desviam,
nas inexplicáveis ocorrências da vida.
Um ponto...um ponto no caminho,
e depois de passado, a certeza de que tudo
faz parte da paisagem e que somente o aprendizado
justifica todos os sentimentos e todos os espasmos,
todas as tristezas, todas as penas, todos os gozos.
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Todavia, quando o sentimento é a verdade,
abre-se em pétalas o raciocínio,
e o trajeto é de sol, iluminado,
perfumado e florido,
a paisagem se transforma em mar aberto
e há um zênite de astros a reverberar no infinito,
quando se odeia, porém, tudo é obscuro, cinza,
enigmático, e rostos encapuçados surgem
lado a lado, marginais ao itinerário traçado
como infernais planejadores do submundo.
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A vida tem o sentido das palavras
e nossa inteligência só alcança grandes notas
se informada pela dor ou pela emoção,
de resto, o que sobra é a canção da mediocridade.
Carlos Roberto Husek
sábado, 15 de abril de 2017
Yoshime...
Quando o sol japonês
descer devagarinho ao final do dia,
na manhã de 16 de abril de 2017,
haverá no céu um brilho
contornando as montanhas,
com delicadeza no traço
e cintilação fugaz,
que irá aos poucos desaparecendo,
tão tênue em sombra,
de um cinza azulado,
influenciado pela noite
de 15 de abril,
quando com seus delicados dedos
a própria Yo entendeu por bem
desligar os aparelhos
que a prendiam à vida.
Acho que se depreendeu do corpo
com suaves gestos,
e foi levada por mãos amigas,
fadas que há muito a cercavam,
chamando amorosamente,
para que ela nãos se admoestasse
e pudesse ainda olhar os seus,
com seus olhos miúdos,
e nos brindar com seus passos
infinitamente macios.
Fará enorme falta
como sói acontecer com as lacunas
que não conseguimos cobrir
durante a vida
e por mais que disfarçamos
não nos permitem chorar,
chorar como um menino,
de tristeza profunda,
porque o dia continua
e o trabalho - que ela amava -
terá que ter a continuidade estoica
dos que sobrevivem,
sem nem pensar
se vale a pena a lida,
se vale a pena sorrir.
Yoshime, nome meigo,
próprio e único, de brandura,
de cordialidade, de gentileza,
de benevolência e de suavidade
da Yoyo, da nossa Yoyo,
que deixará, única maldade sua,
um vazio na mesa da ponta,
da porta de entrada
do gabinete do 19o. andar.
"Cadê a bolinha Yo?",
doce Yoshime,
que nos carregará para sempre
o coração,
no céu, certamente encontrará
amigos e prazeres
com quem dividirá suas impressões
do dia a dia.
Terão dias e noites os céus,
como os daqui da terra?
Não se apresse em descobrir Yo,
porque todas as moradas
lhe serão mostradas
e todas as flores soltarão perfumes
nas suas andanças,
por vias e prados desconhecidos,
mas acompanhada por seres de luz.
Uma última missão:
leve em seus guardados,
feitos de brisa e de carinho,
nossos sorrisos e nossos abraços,
pois estaremos com você.
Carlos Roberto Husek
domingo, 9 de abril de 2017
Silencio...
Silencio,
e cercado por palavras não ditas,
vou conduzindo meu barco
em um oceano infinito,
as águas são claras e as ondas
desenham-se em suaves
sinuosidades como pintadas
a pena com tinta semitransparente,
tudo tem uma cor indefinida,
e do oceano ao horizonte
de um céu sem manchas
aparecem gaivotas
e pulam peixes coloridos.
Silencio,
neste meu corpo desnudo
eriçam-se os pelos
à brisa que parece abraçar-me
na cintura e no pescoço,
tenho saudade do que não vivi
e me aconchego entre travesseiros
à espera da morte,
que a morte vem vagarosa,
com ar doce, os olhos lacrimosos,
passos miúdos, entre flores,
cheirando a lavanda,
vestes fluídicas,
com jeito de menina,
braços abertos,
lábios a sorrir um sorriso amigo,
e a dizer: somos um.
Silencio,
e a vida corre em debandada,
corre louca, corrida em desespero,
para nada e lugar nenhum,
ginete enfurecido,
a crina pontiaguda e solta,
relincha e no galope em disparada,
fica no ar
por milésimos de segundos,
e tem de si uns momentos
de inspiração e de abandono,
a vida é assim, uma carreira
desabalada e alienada
rumo ao desconhecido,
marcada por passagens,
trotes e marchas,
de morte, de amor
e de esquecimento.
Silencio,
e me vejo em diálogo mudo,
em diálogo surdo,
em diálogo cego,
singrando mares internos
liberto de regras e aforismas,
como se estivesse nesse palco
pela primeira e última vez,
sobre este barco e este ginete,
e dentro deste corpo
em decomposição,
do menino que fui
do adulto que sou
e do que me espera,
reconstruo-me em meus guardados,
reconstruo-me
em minhas campinas e prados
reconstruo-me em meus oceanos
e em meus rochedos,
reconstruo-me
nas minhas avenidas e becos,
e assim me apresento,
sem plateia e sem disputas,
correndo contra mim,
em corrida sem fim,
em minha próprias lutas,
velejando nas águas que crio,
vencedor e vencido
na escrita que escrevo,
do meu próprio desafio.
Carlos Roberto Husek
quarta-feira, 5 de abril de 2017
Íntima geografia
Avenidas e ruas laterais
na íntima geografia
alguns logradouros
encontro mais
outros, talvez um dia,
tenho uma cidade
de sentimentos,
deduções e aleivosias,
avenidas e ruas laterais,
música ambiente
marcha fúnebre,
samba e cantoria,
não me encontro mais
nesta íntima geografia.
O caótico trânsito,
dos estímulos nervais,
a pele e os músculos
que entram, por vezes
em calmaria,
tenho receio
de não me encontrar mais,
no espaço de um dia,
há becos laterais
e ventos em confraria
lutam em campos abertos
ferozes animais,
luas e serenatas,
límpidas grafias,
escritos cuneiformes,
velórios repleto de ais
e doces olhares
em romaria
vozes ancestrais,
festas e cantoria,
momentos sepulcrais
alvoradas luminosas
e madrugadas frias.
..........................................
Não me encontro mais
em minha íntima geografia.
Carlos Roberto Husek
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