domingo, 13 de outubro de 2013
Saga do Rio 1
O rio
tem curvas,
tem pedras e segue,
tem nichos e segue e segue,
despreparado, desiludido de folhas,
de pássaros solitários e sóis,
que se multiplicam,
seguindo ondas,
desfeito.
Do leito,
na profundidade,
por vezes um canto triste,
um ruído, um ruído muito triste,
que se perde nas laterais, desmaiado,
pelos fatos, caminhos de ninguém,
que não sabe como termina,
em águas cantantes,
sem passado.
Passagem,
mera passagem,
contínua e célere passagem,
complacente, reflexiva, repentina,
refúlgida, revivida, em gotas revestidas,
de pequenas e claras ondulações,
de imperfeições adaptadas,
que se penteia,
absorto.
Um rio
de água plácida,
de água translúcida,
de água que se engrosse,
um fio de água que marulha,
e se amarga contornando.
pedras, folhas, galhos,
e depois se enfatua,
insolúvel.
Assim,
nossa vida,
misteriosa vida,
que contorna obstáculos,
cresce, engrossa, fortalece, canta,
carrega triste seus problemas,
escurece-se e chora e ri,
ondula-se livre,
e morre.
Carlos Roberto Husek
quinta-feira, 10 de outubro de 2013
ParepareParis
Ao lado do Sena
passam os amantes
como se tivessem
chegado antes,
antes das águas
que percorrem
as margens sinuosas,
antes de seus muros
de pedras e arcos.
Chegaram de leve
carregados de lenços,
e de boinas e luvas,
enquanto o frio
cai em pedaços
como bagos de uvas,
cintilante,
iluminado,
por contornos
indefindos,
materialmente
tangível.
Um frio em globos
e taças,
um frio de vinho
e de quentura
que cai em pedaços,
em meio a bruma.
"La nuit tombe"
no "ciel noir",
no "ciel gris",
no "ciel rouge"
noite "pâle",
de um luar escondido,
de uma garoa fina,
de um simbioso gemido,
e os lábios se grudam
em um beijo demorado,
tudo promete
neste encontro
de esperanças,
ao mesmo tempo,
amantes,
ao mesmo tempo,
crianças.
Os olhares declinam
os mais antigos verbos,
que somente se revelam
entre os servos,
de um sentimento,
de corpos e alquimia
e espiritualidade
e que geme nos cafés
entre olhares
que decifram
esta bilateralidade,
cada qual com seu olhar
sinuoso como o rio,
um olhar de quietude,
de amparo e de desejos
de restos,
e de complementos,
de incertezas,
e de beijos.
Ao lado do Sena
passam os amantes,
braços cruzados
à altura das cinturas,
vão sendo molhados
por suas fantasias,
alegrias
e amarguras.
Há um borbulhar
nas águas cantantes,
que acompanham
os pares
e os impares,
solitários personagens
desenhados
nos cabarés,
nas praças,
e nas ruas,
cujas pedras centenárias
brilham solitárias
e nuas.
Aos poucos a madrugada
amortece as estátuas
e os telhados
que se comprimem
entre sótãos e chaminés
e quadrantes janelas,
sobre os postes
e cafés.
Sobram os cúmplices
que se abraçam
respirando em sintonia
esperando que a noite
revele atrás das pontes
as pontas do dia.
Assim Paris desfalece
e morre e anoitece.
e depois renasce
para sempre amar
com o mesmo olhar
a mesma face,
a mesma prece.
Carlos Roberto Husek
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
PoÉtIcA
V
a V
l a
e, l
e,
embaixo
entre árvores
en
tre
ár
vo
res
uu...mm rr..ii..oo
en
uu...
tre
mm...
ár
rr...
vo
ii...
res
oo...
Afundam
nas águas
b
o
o
olhas
e o reflexo
da lua que
fluuuutua
flutuuuuuuua.
Estou só,
apegado
à imagem
nesta
paragem,
parada no ar,
cibernética
hermética,
e envio
tudo
pelo blog,
caia
onde c
a
i
r.
Que o vale
e o rio
estão dentro
do meu corpo
eCH
f aDO
núcleo,
célula.
que aos poucos
se avulta,
e
c
s
e
r
c
e sai pelos
olhos
como
uma lágrima
e explode
em pequenos
c..a..c..o..s
Carlos Roberto Husek
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Circunstâncias
Eternidade,
nas palavras,
nos gestos,
no olhar
imaterializados
pelo tempo.
Palavras
que sucumbem
aos verbos
da cidade.
Gestos
desenhados
que se perdem
na solidão
dos quartos.
Olhos
que divisam
transparências
nas cortinas.
Um mendigo
das palavras,
dos gestos,
dos olhares,
pede nas esquinas
as sobras
da comunicação
e deixa o sol
iluminar-lhe
o rosto,
e o vento
fustigar-lhe
a pele,
e a chuva
umedecer-lhe
os lábios.
Agachado
nos cantos,
observa as formas
de eternizar
a vida.
Carlos Roberto Husek
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Duplicidade
Tenho em mim
um mendigo
que ficaria décadas
nas calçadas,
e um rei
sendo servido
em bandejas
de prata.
Pego-me às vezes
imaginando
conformado
a tais destinos...
Ser o rei
com seu séquito
de servidores
e de repente,
assim que desse,
e quando,
tornar-me o mendigo.
Tenho em mim,
creio,
um grande Deus
e um pobre diabo
neste mundo
de recreio.
Hoje...
Estou mendigando,
a pedir esmolas
em cada esquina,
e do céu
sobre a minha
cabeça
cai uma chuva fina.
Carlos Roberto Husek
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Operário invertido
Desconstrução...
Des
cons
tru
ção...
A poeira que sobra
e que se acomoda
na palma da mão,
invade a alma
na decodificação,
e vai emparedando
os dias
na desilusão,
de reconstruir
o destruído
na des
cons
tru
ção.
Carlos Roberto Husek
domingo, 1 de setembro de 2013
Operário de mim mesmo
Operário
de mim mesmo,
construo
com as sobras
do dia anterior,
cada raciocínio
cada sentimento,
cada dor,
e vou levantando
muros,
subindo degraus,
torres subindo,
fiz masmorras,
e quartos escuros,
e em torno
desse castelo,
fortificado,
criei um lago
de águas profundas,
de águas profundas
criei um lago.
Operário
de mim mesmo,
faço cálculos,
grandes projetos,
e desmaio
soterrado,
pelos blocos
de concreto.
Carlos Roberto Husek
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