quinta-feira, 16 de maio de 2013
Dez pequenos poemas sem título
I
A vida passa,
em busca da
verdade,
enquanto no forno
da existência
o coração arde.
II
Por vezes há gotas de luz
esparzidas
em pequenas camadas
que não absorvem
os estragos
das grandes feridas.
III
Fica no ar a possibilidade
de olhar no horizonte
perdido,
um raio esquecido.
IV
Às vezes o dia se vai
apagando de mansinho
a luminosidade do caminho.
V
Meus olhos cismavam.
Eram puros...
Brilhavam, reverberavam,
mesmo nos dias escuros.
VI
Apanho rosas pelos caminhos,
e me firo de espinhos.
VII
Ouço o som de coisas mortas,
compassadamente
batendo em todas as portas.
como se fosse o presente.
VIII
Arrasto chinelos que não visto,
por ruas que não ando...
IX
Vou de ponto em ponto
fazendo sinal à condução
que passa,
passa...passa...passa...
X
Estes olhos, meus olhos,
Estes ouvidos, meus ouvidos,
Estes lábios, meus lábios,
e nenhum sentido...
Carlos Roberto Husek
quarta-feira, 15 de maio de 2013
Alguns versos - pensar...
"Profundamente"
Manuel Bandeira
"Hoje não ouço mais as vozes daquele
tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente."
"Fuzilado"
Jacques Prévert
"As flores, os jardins, os repuxos, os risos,
e a doçura da vida.
..................................................................
Jaz um homem no chão, criança adormecida."
"O guardador de rebanhos"
Fernando Pessoa
(Alberto Caeiro)
"Ah, como os mais simples dos homens
São doentes e confusos e estúpidos
Ao pé da clara simplicidade
E saúde em existir
Das árvores e das plantas!
...........................................................
Há metafísica bastante em não pensar em nada.
...................................................................
Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todas as sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.
................................................................
Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorriso nas flores
E canto no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios."
Carlos Roberto Husek
segunda-feira, 13 de maio de 2013
Olavo Bilac e Freud
"Assombração"
"Conheço um coração, tapera escura,
Casa assombrada, onde andam penitentes
Sombras e ecos de amor, e em que perdura
A saudade presença dos ausentes.
Evadidos da paz da sepultura,
Num talatar de tíbias e de dentes,
Revivem os fantasmas da ternura,
Arrastando sudários e correntes.
Rangem os gonzos no bater das portas,
E os corredores enchem-se de prantos...
Um mundo de avejões do chão se eleva,
Ressuscitado pelas horas mortas:
Frios abraços gemem pelos cantos,
Beijos defuntos fogem pelas treva."
Olavo Bilac conseguiu, como poucos, descrever os sentimentos vivos que vivem em alguns corações quase esquecidos de relacionamentos passados. Pode ser um relacionamento de mãe, de amigos, de amores vários. Uma casa assombrada em que está presente a saudade, além de fantasmas de ternura, "arrastando sudários e correntes", braços frios que "gemem pelos cantos" e "beijos defuntos" que "fogem pelas trevas". É uma morada de sentimentos que deveriam estar enterrados, mas que foram juntados como condôminos num mesmo espaço, sem janelas, sem alimento, sem luz. Alguns deles revoltam-se e buscam ar, outros se conformam, outros ainda, tentam a transformação para saírem daquele cubículo (daquela tapera) renovados para outros sentimentos, outras formas de agir (trabalho,estudo, arte). Todavia, acabam "ressuscitados pelas horas mortas". Freud entendia disso... Carlos Roberto Husek
domingo, 12 de maio de 2013
Cadeias
Cadeias...
Todos estamos presos
às nossas circunstâncias
e brincamos com as palavras
e brincamos com a vida.
Cadeias...
E a vida se vai,
a cada minuto,
a cada hora,
a cada dia.
Cadeias...
Se de ferros
suas grades...
se de madeira
suas grades...
se de espumas
suas grades...
as construímos
e as derrubamos.
Cadeias...
Que se libertam
pela morte.
desenhadas que foram
em páginas em branco.
Cadeias...
Histórias...
uma sequência
sem número,
sem pauta,
sem começo,
sem fim.
Cadeias...
Uma vida,
um retrato,
um suspiro,
e o som
do pensamento
moldando os ferros,
as madeiras,
as espumas,
em um livro
inexistente,
publicado
nas gráficas
do infinito
para leitores
imaginários.
Carlos Roberto Husek
sábado, 11 de maio de 2013
Um poema
É possível encontrar
no meio da floresta escura
um raio de Lua?
Um regato, manso fio
d´água
cantando a mágoa?
Uma fímbria desocupada
de uma gota perdida
numa folha lustrada?
Afundando na mata fria
um fio de água sorria
e uma cor branca
na sua superfície de lata,
esticava-se entre sombras
uma Lua de prata,
e uma gota brilhante
numa folha caída
deixava um rastro
de vida.
Aqui está mais um poema sem nome. É certo, no entanto, que a Lua, a gota de água, a folha e outros elementos estão em algum lugar nesta floresta escura que temos (todos nós) dentro do coração. Carlos Roberto Husek
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Maria preta
Abaixo uma poesia que fiz - há algumas horas - quando soube da internação de uma serviçal (talvez, 90 anos de idade, ou mais...não se sabe... empregada, escrava..?) que trabalhava desde os 8 anos em uma casa de família, deixada que foi pelo pai, lá pelos idos de 1930.
Balada da Maria Negrinha
Maria preta,
Maria negrinha,
que viveu como escrava,
cada vez mais negra
e sozinha.
Andar miúdo,
pequeno, arrastado,
chinelos de tira,
o pé na meia enfiado,
Maria preta,
Maria negrinha,
Maria do sobrado.
À noite sentava-se,
cotovelos apoiados,
segurando as têmporas,
mãos do lados,
entre os dedos
cabelos carapinha,
Maria preta,
Maria negrinha.
Mastigava detritos
nas gengivas nuas,
arrastava seus passos
entre os muros da casa,
nunca nas ruas.
E servia os patrões,
e estes dela se serviam,
quieta postava-se
nesta única via,
entre o quintal
e o quarto,
o banheiro
e a cozinha.
Roupas pendurava,
o chão varria,
lavava louça,
a sujeira recolhia,
Maria preta,
Maria negrinha.
Em torno dos olhos,
a pele de azeviche,
enrugada pelo tempo,
dobrada em folhas
a epiderme de piche.
Não era mulher,
não foi menina,
o sexo não lhe contava
em nenhum braço
se aninhava,
não era flor,
e sim erva daninha,
Maria preta,
Maria negrinha.
Só era uma sombra
entre o quintal
e o quarto,
o banheiro
e a cozinha.
Pobre Maria,
Maria preta,
Maria negrinha...
Carlos Roberto Husek
terça-feira, 7 de maio de 2013
Cultivando o impossível
Escrever versos, fazer poemas...! Não é fácil - não pelas regras gramaticais - mas pelas espirituais. Há períodos de seca, de seca total. Nada se cria, nada medra. Dois fatores básicos: ou a vida está tão repleta de eventos, de mortes, de afazeres, de conquistas, de diabruras, de embates psicológicos, ou parece o fim dos tempos: tudo se aquieta como num deserto em que o sol está queimando a areia e nenhuma brisa faz movimentar a paisagem. Em outras palavras: ou a vida social e profissional ocupa o espaço total dos dias ou a solidão é tão grande que sequer restam os sentimentos e as palavras, só um olhar sem lágrimas a medir as distâncias. Época de cheias e de vazios! Na verdade, tudo, depois de algum tempo, produz poesia, porque quaisquer movimentos ou quaisquer quietudes vão acumulando sentimentos. Estou na entresafra: repleto nos dias, vazio nas noites: claro/escuro; escuro/claro. Só tenho uma certeza: há um deserto no que escrevo; um deserto de palavras, um deserto de leitores, um deserto de idéias. Escrevo-me; reescrevo-me; leio-me; releio-me. Estou montado no cavalo dos vocábulos cavalgando sobre pedras secas; estou cultivando rosas em savanas; estou buscando guardar pingos espaçados de chuva em canecas vazias. E, com as poucas palavras, com algumas rosas e com algumas gotas, falo baixinho para flores quietas e com as pontas dos dedos deixo cair o orvalho recolhido sobre pétalas já pálidas. .............................. O pontilhado fala mais. Carlos Roberto Husek
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