sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Meu espaço de escrita


Silêncio...
Há um deserto de palavras
             não ditas.
Silêncio...
Há um deserto de palavras
            não lidas.
Há um deserto de silêncios
nas palavras perdidas.
Há um deserto perdido
nas palavras da vida.
Há vidas perdidas
nas palavras mortas.
Silêncio...
que sussurro entre frases
    que se acomodam
           e se esfumaçam...

Carlos Roberto Husek

Florbela Espanca


Suicidou-se aos trinta e seis anos, entre o dia 7 e 8 de dezembro (na passagem), exatamente a data em que completaria esta idade. Tratou-se de uma espécie de ritual. Nasceu em Vila Viçosa, Alentejo, em 1894 e morreu em 1930.
Sua poesia produto de solidão, romantismo e tristeza que não morreram nos dias atuais. A prova disso é o poema "Fanatismo", tornado música conhecida pela voz do cantor Fagner:

"Minh'alma , de sonhar-te, anda perdida.
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda razão da minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

'Tudo no mundo é frágil, tudo passa...'
Quando me dizem isto, toda graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, digo de rastros:
'Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!...'"

E mais, algumas quadras fantásticas de lirismo:

(poesia Frieza)

"Os teus olhos são frios como as espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Tem brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas."

(poesia Errante)

"Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos."

A realidade não é esta? Há fome, desemprego, crimes? Talvez falte poesia (uma solução prática...!). Carlos Roberto Husek

domingo, 6 de janeiro de 2013

Manoel de Barros


Ainda destacando Manoel de Barros (Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo - Poema)

"A poesia está guardada nas palavras - é tudo que
eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios."

Carlos Roberto Husek

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Meu espaço de escrita


Quando postar com este título revelo poesias inéditas, já feitas em tempos passados ou criadas no momento. A maioria sem nome. A denominação de um texto é uma dificuldade maior do que criar alguns versos. Explico: para dar um título necessito pensar, para escrever poemas necessito sentir.

Abre-se em par,
uma janela tão simples,
de vidro e ferro,
uma claraboia para o tempo.

Perscruto a noite,
o dia e os astros,
há algo indedfinido
  no espaço.

Abre-se e nela
um vazio ronda,
percorrendo o tempo.
Abre-se vazia
e sem embaraço.

Perscruto a noite,
o dia e os astros,
todos mudos,
Observam-me
     sem brilho. 

Abre-se em par,
uma janela tão simples,
de vidro e ferro,
o vento entra e sopra,
o pó se  levanta.

Perscruto a noite,
o dia e os astros.
Paredes vazias,
palavras perdidas,
muita sombra.

Abre-se e nela
um espaço infinito.
Doído, petrificado,
no horizonte,
               o cadáver
  de um grito.

Carlos Roberto Husek            

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O que é um poeta


A poesia de Manoel de Barros "Disfunção" revela bem o que não se define:

"Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 - Aceitação  da inércia para dar movimento às palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção de contiguidades anômalas entre verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.
6 - Mania da dar formato de canto às asperezas de uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância aos passartinhos do que aos senadores."

É isso Não sou um poeta completo, mas tenho mania de comparecer aos próprios desencontros, bem como pela inércia movimento palavras e tenho um certo apego pelos seres sem importância. Carlos Roberto Husek

Destacando Paulo Bomfim


Soneto II (1959)

"O livro que hoje escrevo foi escrito
Em outro plano estático e diverso,
Sei que morro no fim de cada verso
E renasço no início de outro mito.

Em cada letra tinta do infinito
Há um diálogo mudo que converso
Com nebulosas de meu universo
Onde nasceu a página que dito.

Sei que sou triste neste instante o que já fui,
E aquilo que recebo agora flui
De um campo superior onde me deito.

Durmo além, nessa plaga que recordo:
Só escrevo neste plano onde hoje acordo,
Aquilo que ainda sonho no outro leito."

Sonetista, um dos melhores da lingua portuguesa, nascido em São Paulo a 30 de setembro de 1926, continua a pensar e respirar poesia nos dias atuais.  seu primeiro livro foi "Antonio Triste "(1947). Entre outros publicou  "50 anos de poesia" (1998) "O lIvro de sonetos" (2006), sempre primando pelo verso trabalhado e pelas imagens delicadas e ricas.

Da Chegada (do Livro Práia de Sonetos - 1981)

"Quando chegares e eu já for ausência,
Pensamento estrangeiro em tua fronte,
Brisa de paz que se transforma em fonte,
Ou simples intuição sem permanência;

Pressente-me na chuva da inclemência,
Nas aves desgarradas do horizonte,
Nas alegrias construindo a ponte
Por onde há de voltar toda inocência.

Quando chegares nas manhãs de olvido,
Invoca-me no fundo de tua alma
Dentro de um credo estranho e perseguido;

Que a morte há de soltar da garra adunca
Este que sou agora em tarde calma,
Um sempre que renasce sobre o nunca!"

Este é um príncipe dos poetas. Atual, atualizado, romântico e embora conhecido, ora pouco falado. Pena! Nos dias de "olvido", vem esquecido, embora consagrado.
Em sua homengagem, pois, reescrevo:

Príncipe dos poetas,
atual, atualizado,
embora conhecido,
pouco falado,
nos dias de olvido,
vem esquecido,
embora consagrado,
eu que sou Carlos,
mais nada,
não me fiz esquecer,
respiro nos seus sonetos
o que não consigo ser.

Carlos Roberto Husek

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Latipac - A cidade e seus espelhos


Não há mais o que falar sobre Latipac. Muitas páginas ainda subsistem (são ao todo 237 páginas de um único poema).

Na última postagem falamos num recomeço, como o novo caminho após a morte (morte da vida, morte em vida, morte do que se entendia eterno, morte simplesmente). Mas nada efetivamente morre, apenas se transforma. Aliás, as coisas permanecem e ganham novas cores, novas proporções, novos efeitos. Na verdade, nada há de novo sob o sol, nem as nossas perplexidades, nem as nossas indiferenças, nem as nossas vontades, nem as nossas apostas. 2013 vem como veio 2012 e virá 2014. Um ano após outro repleto de significados ou não significando nada, a não ser um outro olhar, o olhar que nos propomos diante da mesma paisagem. Nós somos a eterna mudança, por isso é que permanecemos, e porque também somos a eterna permanência, nos reinventamos.

"Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno e asa ritmada.
E um dia estarei mudo:
- mais nada."(Cecília Meireles)


A vida só vale a pena se reinventada. Carlos Roberto Husek