domingo, 2 de abril de 2017

Sou?




Quero tudo que me é destinado,
quero muito do tudo que é pouco,
mas ainda que esteja necessitado,
faço-me de desentendido e de louco,
fecho-me em meu mundo albergado,
mas nele não me encontro tampouco,
tenho nas veias um sangue coagulado,
grito mudo, emudeço em grito rouco,
o que conquisto não se tem conservado,
afundo em minhas águas; triste aqualouco!

Será que sou feito de águas?
Será que sou feito de muitos e de poucos?

Em mim sobrevivem outros,
que se entendem e se conflitam,
sou um anjo redimido
pouco ou nada conhecido,
sou pedra, areia, fundo de rio,
onda que seca, mar revolto,
ando na terra como sobre um fio
acrobata do meu circo, palhaço solto.

Quero de mim o que endosso,
endosso em mim o que não quero,
equilibro-me em meus ossos,
... e espero ...


Carlos Roberto Husek


Um comentário:

  1. Nos territórios do cotidiano há pequenas circunstâncias, palavras e gestos que marcam a presença das incertezas, com as quais precisamos aprender a conviver.
    A beleza está em acolhê-las e desvendar as intenções, os propósitos.

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